20 anos – Noite de Gala

Vinte anos de Margarida

Cíntia Vieira da Silva

Na entrada do Espaço Semente, lugar da festa de aniversário de Margarida, o que se deixava ver primeiro era uma mesa. Quase um altar, com os objetos sagrados que transmutam Adelvane Néia em Margarida, a palhaça fanáticas por rosas. Vermelhas. Energia vital, ela costuma dizer.

Adentrando ainda mais naquele espaço, descortinavam-se os vestidos de Margarida flutuando no ar, como um prenúncio de seu número aéreo ao final desse encontro que foi, a um só tempo, festa, cerimônia, ritual, enfim, encontro mágico de alegria vitalizante.

A mágica se fez como revelação e como ocultamento. Adelvane conta, desde a entrada no palco, sua história de atriz e palhaça, suas migrações e peregrinações. Tem a ajuda de Eva, sua mãe, que parece ter nascido palhaça, na desenvoltura e disponibilidade para o jogo cênico, abrindo-se mesmo e, principalmente, ao ridículo e ao risível. Outra voz a contar a história de Adelvane e de Margarida é a de Carlos Simioni, amizade duradoura, parceria, figura de autoridade para Margarida. Junto com Ricardo Puccetti, outro ator do núcleo de pesquisa teatral coordenado por Simioni, ocupou o posto mítico de dono do circo (Monsieur Loyale) durante o segundo retiro de clown de que Adelvane participou.

Enquanto ouvimos alguns relatos, vemos a palhaça ir surgindo diante dos nossos olhos. Adelvane entra em cena sem a maquiagem, a peruca e o nariz vermelho que compõem o corpo intensivo de Margarida. À medida em que o nascimento de Margarida vai sendo narrado, Adelvane vai assumindo este outro corpo. Sua gestualidade, sua voz, vão se alterando aos poucos, até que ela aplica a maquiagem em seu rosto, troca de roupa, coloca a peruca e o nariz. E finaliza-se a transformação. Mas aquilo em que ela se transforma, Margarida, não é uma forma fixa. É um estilo de variar ininterrupto. Margarida vai da rigidez de uma autoridade satisfeita de si ao desvario completo no proferir palavras de ordem, destituindo-as de seu sentido habitual.

Nessa voz proferida de cima de uma gangorra em pleno balançar, planando diante dos olhos maravilhados da platéia, a frase “só o amor constrói” não aponta para qualquer rigidez moral, mas se torna um grito de guerra, uma ode à alegria.

Escrevo isto e me dou conta de que falei do final, do encerramento desse encontro com Margarida, sem falar do meio, do miolo. Foram muitos os convidados que passaram pelo palco festivo de Meg. Até mesmo eu, que tenho sido mais filosofante do que palhaça, fui celebrar os 20 anos daquela que ainda é para mim a dupla da Cuzim, aquela que a ajuda a se tornar bailarina, borboleta, passarinho, alegria saltitante em vôo desajeitado. Mas meu número com a Margarida também foi depois.

Antes, muitas cenas antes, durante o número de Mafalda/ Andréa Macera, a tempestade interrompeu a luz.

Como ser palhaço no escuro? Como poderíamos nós, palhaços, encontrar os olhos do público para os quais aprendemos a nos abrir e que aprendemos a desejar e conquistar? De onde viria o alimento que disparasse nossas metamorfoses, nossos devires entre palhaços e participantes do público?

Mafalda talvez não tivesse essas indagações, já que não perde o rebolado e ainda consegue uma mecha de cabelo de uma participante do público. Presente de aniversário para a Margarida, ela explica, brandindo a tesoura enquanto convida um voluntário para a doação.

Tantos palhaços amigos vêm saudar Margarida, alguns antes, como as Marias da Graça. Outros, depois de Mafalda, já sem luz. Minha posição não me permitiu assistir tudo. Estava atrás da cena, esperando minha vez de entrar, aproveitando as vibrações de riso a que outros palhaços iam dando ensejo para reativar a Cuzim. Meu nariz vermelho não pisava num palco havia uns dez anos.

Queria guardar como um tesouro muito precioso e intocável, impossível de roubar, a entrega total de Dolária/ Ana Elvira Wuo, sua capacidade de se despojar de qualquer vergonha, sua busca da alegria à beira da insanidade. Seu desembaraço era tamanho que, não só cantou uma música que tinha previsto dublar (impossível sem energia elétrica!), como também, depois de usar um desodorante para se refrescar no início de sua performance, guarda este objeto de formato sugestivo dentro de seu collant verde, em lugar propício a suscitar dúvidas que acatam a sugestão do objeto.

Zabobrim, em sua empolgação compulsiva, bebe quase sozinho a cachaça que tinha trazido para brindar com Margarida e seus convidados. A embriaguez que lhe toma é radiante, alegre, nunca decadente ou degradante.

Aristo, galanteador que nem mesmo uma gripe pode curar. Seus espirros atrapalham a paquera que entabula com uma moça do público, ao mesmo tempo em que dão ensejo a que ele se aproxime de Margarida. A ambigüidade desta aproximação propicia todo um aprendizado em torno do amor: até que ponto podemos enquadrá-lo num ideal romântico em que as circunstâncias em torno daqueles que amamos não contam para nada? Amamos também aqueles que nos ajudam a nos livrar dos lenços com que nos assoamos, mesmo que a saída que nos ofereçam seja depositá-lo em nossa boca. Margarida se irrita por ter sido usada por Aristo como instrumento para se livrar do lenço sujo, mas vemos que, por um momento, o carinho que ele lhe fazia com o lenço já não tinha mais esse propósito, já não tinha um alvo qualquer, tinha-se tornado uma brincadeira entre os dois, um vetor de produção de novas ações, de novos risos.

Quando Margarida subiu no balanço, ficou claro para mim como a falta de luz tinha operado em nós, palhaços que se apresentavam e público participante. Apareceram ali condições para que disparássemos o propulsor da singularidade do palhaço: a força de transformar acontecimentos, que poderiam ser vistos como dificuldades, em ocasiões para novas descobertas e exultantes problematizações.

O que a falta de luz provocou, no entanto, não foi escuridão total. O espaço foi iluminado pela solidariedade do público, manifestada com seus aparelhos de celular e lanternas. A intimidade produzida por essa penumbra, ainda que tenha nos privado do contato com o olhar de cada participante da platéia, conferiu uma solenidade delicada àquele evento. Permitiu também que Margarida fulgurasse em esplendoroso entusiasmo, balançando sentada na gangorra, depois, de pé, alçando vôo expressivo, falante, em votos bendizentes aos que tinham vindo parabenizá-la: “que todo mundo possa viver um grande amor”, “que todo mundo seja feliz”. Brados tornando-se convites a um estado de abertura ao inesperado, à alegria dos encontros com outras tempestades, raios e trovões que possam produzir, em nós e conosco, um viver cada vez mais leve.