Crítica Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente

O DOM DE SER CLOWN

Marici Salomão

A criação do clown é notadamente solitária. Ainda que seja fundamental a apreensão de técnicas e o convívio com os pares, é nas redes internas de sua personalidade que buscará o fio condutor criativo de seu próprio palhaço. Logo, cada arquétipo gerado dessa matriz nunca é igual um ao outro. Nesse registro, a performance A-Ma-la, de Adelvane Néia, da Humatriz Teatro, de Campinas prova que ser clown é um dom. Em sua 100a apresentação completada no Fentepp, apresenta resultados altamente positivos.

Durante 1h15, Adelvane tem o público nas mãos. De saída, ganha a adesão dos espectadores pela forma solitária e bizarra com que seu clown, Margarida – mulher sonhadora, estilo anos 50 – compartilha o desejo de encontrar alguém na vida (entenda-se um marido). Já nos primeiros minutos, a atriz quebra a separação palco-platéia e convida simbolicamente a que todos sejam coadjuvantes de suas pequenas ações, envolvidos com a solidão ingênua de seu clown – o que é um pouco a solidão de cada um de nós, bem ou mal disfarçada pelos mecanismos sociais.

Partindo de uma premissa muito simples – Margarida espera um alguém que lhe trará um buquê de flores, em declaração de amor –, Adelvane vai dando sentidos às coisas que tira de um baú, como que aliviando ou fazendo evadir de si o duro compromisso com a passagem do tempo. Com um número que envolve dois espectadores na cena, numa aula, conduzida por ela, de como formar cavalheiros, a performer registra alguns de seus melhores momentos. Platéia totalmente ganha, pequenas ações, como ligar um rádio ou simbolizar as cores, são experimentados com grande sabor.

Seu clown minimalista usa, ao contrário de outros, o recurso da voz. Mas consegue fazer dela parte indissociável de seu jeito.

Do clown Margarida é importante que nada escape. E não escapa: das arquibancadas, ela comenta sobre o boné do mano, responde a uma frase arteira, diz máximas engraçadas a espectadores escolhidos na hora.

Mas tamanho frescor vai se perdendo um pouco ao final. Para atritar melhor com a idéia de “espetáculo”, uma ou duas novas situações poderiam ser criadas para a mesma 1h15 de apresentação, a exemplo do número do casamento imaginário com um estrangeiro de mãos enormes ou o show-biz torto e espalhafatoso clonado de Piaf. Assim, o vazio continuaria pertencendo à personagem e não ao espectador.

Com direção assinada por Naomi Silman, o grande mérito fica mesmo por conta da grande empatia de Adelvane.