Sobre A-MA-LA – Chico Moreira Guedes

MAGIA DE CLOWN NA CASA DA RIBEIRA

Por Chico Moreira Guedes

O que pode uma mulher baixinha, sozinha, diante de uma platéia cheia, por mais de uma hora e meia? Se a mulher atender pelo curioso nome de Adelvane Néia, há boas chances de ela tecer um encantamento teatral irresistível, e botar a platéia no bolso. E fazer isso “usando” essa platéia praticamente o tempo inteiro, criando uma atmosfera de empatia que faz a gente seguir alegremente palco acima pra auxiliá-la nas peripécias nonsense de clown exímia que ela desfia com maestria dos veteranos.

Este sábado e domingo Adelvane Néia encheu a Casa da Ribeira de “energia vital”, um dos supostos poderes dos “sais” que ela espalha ritualmente pelo palco no início do espetáculo A-MA-LA, aproveitando pra jogar um punhado também sobre uma ainda meio assustada turma do gargarejo. Antes desse ritual propiciatório, que mistura humor com uma dose de sabedoria, ela entrou pelo corredor, vinda de trás da platéia em direção à cena vestida como uma espécie de perua vintage, fazendo cumprimentos em línguas estrangeiras reais e inventadas, que as pessoas vão repetindo meio encabuladas, como costumamos ficar se nos convocam pessoalmente num teatro, diante de estranhos, temendo micos reais e, sobretudo, os imaginários.

Mas o feitiço de Adelvane vai se tecendo seguro, não demora muito e ficamos mais soltos, com vontade de brincar, de entrar na roda; começam as gargalhadas soltas, os aplausos espontâneos, inclusive pros micos ou sucessos dos assistentes voluntários ou convocados por Margarida, pois é esse o nome da personagem que Adelvane incorpora na “peça”, se é que assim podemos chamar um espetáculo de virtuose cômica e técnica de uma só atriz, que tampouco é um monólogo, porque tudo em A-MA-LA envolve diálogo e interação com a platéia.

E se rolam gargalhadas, muitas gargalhadas, gritos e assovios, há também momentos de grande lirismo, até de doce melancolia, pois essa mescla de emoções é a matéria com que sempre trabalham os grandes palhaços, basta pensarmos em Carlitos (como Charlie Chaplin era conhecido no meu tempo de menino, quando meu pai nos levava ao cinema Rio Grande nos domingos de manhã. Pois é moçada mais nova, isso já existiu em Natal).

Margarida pontua toda encenação com a eloquência de sua solidão e romântica espera de um Godot que lhe trará flores. Enquanto ele não chega, ela vai brincando e partilhando seus surtos com seus novos amigos, nós da platéia.

Uma mala pequena, um buquê de rosas – ah, a delicadeza das emoções que ela cria com esse ramalhete de “oito rosas champagne e uma encarnada” (todos os detalhes, cores, números, gestos têm seus significados ocultos ou simbólicos devidamente “explicados” e explorados graciosamente com a platéia) −, um baú de onde saem um velho rádio de mesa, fundamental em várias atmosferas criadas em cena, um pequeno boá de plumas brancas, que nas mãos de Margarida de repente vira um felino mascote cheio de vida e dengo, um mini-tamborete, um vestido longo verde, com que ela levanta a pláteia (mais uma vez) fazendo uma dublagem de La Vie en Rose em ritmo de dance music que deixa muita drag no chinelo; esses são os recursos que a pequena grande Margarida usa com destreza pra nos transportar ao seu país das maravilhas cênicas.

E há, indispensável lembrar, a luz. Ronaldo Costa, o menino-prodígio cujo trabalho só conheci outro dia, quando ele criou a luz magistral de “Sente-se”, adaptação de As cadeiras, de Ionesco, também comentada aqui, deu o ar da graça outra vez em grande forma. Comemorando 10 anos de carreira como iluminador teatral justamente com esse espetáculo, e apesar de algumas dificuldades técnicas, que ele revelou depois (quebra de equipamento, coisas que rolam), Ronaldo conseguiu criar momentos de grande efeito e beleza: vale destacar o final, quando ele usa um facho de luz enviesado sobre uma minúscula argola de metal que gira pendurada num fio invisível sobre o baú aonde Margarida acaba de se recolher, feito boneca de pano.

O teatro está todo no escuro, e o que vemos é uma minúscula estrela dourada, muito brilhante, que cintila, cintila, vira duas, vira várias estrelinhas, volta a ser uma, torna a se multiplicar, gira, faísca e gira, enquanto nosso pasmo suspende o tempo; uma pequenina maravilha feita de quase nada, uma pepita de ilusão luminosa suspensa no ar do teatro.

Bela metáfora visual resumindo com sensibilidade o espírito do espetáculo de uma pequena mulher cheia de talento e brilho.

Longa vida a Adelvane Néia, a Ronaldo Costa e à Casa da Ribeira!

PS. Mais informações sobre a paranaense Adelvane Néia, sua carreira e as oficinas de clown que ela anda fazendo com grupos de artistas locais podem sem encontrados no site da Casa da Ribeira.

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